Sou mesmo um atleta com sorte.
Uma amiga nossa deu-nos pernoita a 3 kms da partida de Melides.
Saída de casa às 7,45 para levantar o dorsal no secretariado de praia, no fim da bicha de pirilau que se formou estrado fora. A meio caminho vejo dois companheiros a enrolarem fita cola pelos tornozelos acima, numa tentativa de evitar a entrada de areia para os ténis. Dizia um para o outro "Se precisar de mais fita diga, há suficiente para todos..." Se passassem pelo Museu de Arquelogia naqueles propósitos, ficavam lá retidos na secção das múmias do Egito. Calhou-me o numero 19. O meu numero da sorte. Dois dedos de conversa com a Analice, o Cardoso, a Silvia de Pataias. Chegou a hora e o Carlos Lopes, que está muito mais magro, deu o tiro sêco de partida. Ao meu lado o Mayer Raposo, de bastão na mochila e sapatos anti peixe-aranha. Atrás de mim, o meu companheiro-vassoura de Vale dos Barris, com sapatilhas de balet impermeaveis....Os outros das pernas com fita cola de múmia iam fazer uma maratona pela primeira vez. Eu lá optei por umas polainas da Quechua, que me protegeram da areia muito bem. Areia mole e eu muito pesado a enterrar os pés bem fundo. Contas de cabeça para ver como iria aguentar este piso do qual me tinham falado tanto... Ao fim de um quilometro, a maré mostra-se vazia, deixando uma autoestrada de piso duro. Mais outra sorte. Assim e sem calor (22º- que sorte) não podia pedir melhor. Aliás podia, porque a nortada começou a acelerar devagarinho contra mim, até ao fim da corrida, a depilar as pernas a jacto de areia. O 5,5kms chegaram em 44 minutos, os 10kms em 1,27h. O João Martins, o meu companheiro dos 101 kms de Ronda, apareceu vindo do mar e do nada, para me dar um abraço de incentivo. O Isogel dava-me energia de 40 em 40 minutos e não precisava de água. Moral e confiança muito altas . Afinal a prova era fácil. Tenho de dizer ao João Carvalho que afinal deviamos ter feito esta ultra em vez da Maratona de Nice. Passei por uma jovem atleta alemã que caminhava . "Queres gel?" ."No, thank you. Oubriegada." Dos 20kms aos 28,5, colei-me ao Mayer Raposo a arrotear o areal. Chegámos ao abastecimento e ele oferece-me metade de uma sandes..."Faltam duas horas para Sol Troia", dizia-me .Optei pelas barras isostar. Parti sozinho e, ao fim de uma hora, ninguem atrás e ninguem à frente.... Finalmente passei por outro companheiro que, com os ténis na mão, avançava aos centimetros..." Acha que falta muito?" E eu à procura dos 34,5, quando o controle era aos 37,5. No meio de uma praia cheia de gente. Passo por casais aos beijinhos...Insurgi-me junto da organização, não há coração que aguente tanto estímulo. Telefono à mulher a dizer que dentro de uma hora estou na meta. Comecei a andar durante uns 500 metros. Mais Isogel, e chega a náusea. Chegámos aos 40kms, e agora é facil, digo eu. 6horas e meia de corrida. O horizonte sem sinal da chegada. Os apoios em moto4 continuam a garantir que ela está lá ao fundo. Por esta altura, as ondas vinham ter comigo e eu já não me desviava. Sabia bem a frescura do mar nos pés. As polainas retinham quase toda a areia. Calculo os 41kms. Nada se avistava. Calculo 42kms. Nada no horizonte. Aparece o apoio de mota e diz " Não está a ver o insuflável amarelo lá ao fundo?". Um pontinho amarelo no amarelo da areia. Cá para mim já via a meta muito ao norte da serra da Arrábida. Sou ultrapassado pelo homem da marcha com bastões. Sou ultrapassado pelo casal das lebres do Sado. Sou ultrapassado pelo homem de vermelho e peúgas brancas. À vista da meta há um companheiro que se cola. Basta de ultrapassagens. Rapei o ultimo fôlego e sprintei 100 metros em areia profunda. E com esta figura de Charlot a patinar em alta velocidade quase sem sair do mesmo sítio, acabei a prova em 7 horas. Feliz. E ainda tive a sorte de apanhar o serviço de massagens a funcionar....
segunda-feira, 18 de julho de 2011
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